19.9.21

Que nem Jesus

Era domingo, nem tão de manhã assim.

Terceiro dia de sofrimento.
Tentei mudar minha atitude, com um certo atraso, já que só saí da cama 2 horas depois de já estar acordada, quando comecei a ficar zonza de fome e estava quase destruindo meu celular.

Me comprometi a ficar o mais longe possível dele e me abri pra ouvir uma seleção de novidades, recomendações do aplicativo.
Muito profundas. Incrível o lugar que a música preenche na minha vida.

Por um segundo, me distraí e olhei pros bilhetes colados na porta da geladeira.
Em um deles, a letra da minha mãe assinou:
"Beijos nossos, com saudade! Mamãe e Papai"

Será que um dia a gente cresce realmente?

Eu só sei que não havia lavado o rosto ainda, a urgência por preparar qualquer coisa pra comer foi maior.
E agora já não fazia diferença: meu rosto se lavava em lágrimas, de dentro pra fora.

(...)

Eyes Without A Face - Javiera, Los Imposibles.

Essa começou doendo, tocando lá no fundo.
A nostalgia é espinhosa.
Mas com o tempo, fui ficando mais confortável. Essa versão é a união perfeita de uma música que meus pais adorariam ouvir, repaginada, mais moderna e muito, muito gostosa.

Preciso sobreviver pra ouvir essa com eles. É só isso. Aguente firme!

7.9.21

Eu só quero amar.

No meio da manhã, Carolina me alertou de algo que eu nem tinha percebido:
- Será que aconteceu alguma coisa com o Rafael? Ele tá sumido, né?
- Nossa, é verdade...

Rafael não aparecia muito na padaria, então eu já estava acostumada com a ausência do chefe, enquanto eu e Carol dávamos nosso melhor, semana após semana, pro negócio continuar de pé.
- Eu mandei uma mensagem pra ele na sexta-feira e ele não me respondeu até agora!
- Realmente, Carol... eu avisei no grupo que a gente vai ter uma encomenda grande pra essa semana e ele também não falou nada, não comemorou... nem chegou a ler a mensagem! Deve ter acontecido alguma coisa. Bom, vamos esperar, né...

No meio da tarde, Rafael ligou. Carol atendeu animada, mas logo vi que minha suspeita se confirmava. Algo tinha sim acontecido.
- Não, por mim tudo bem, Rafael... vou falar com ela!

Após desligar o telefone, Carol confirma:
- Rafael falou que tá acompanhando a mãe dele, que passou mal no fim de semana. E ele também falou que esse mês não tem dinheiro pra pagar nosso salário. Se a gente pode esperar entrar o pagamento da encomenda que o Zulu fez, pra pagar as contas fixas, aluguel, etc, e depois pagar a gente...
- É, eu imaginei... - respondi sem muito ânimo e também sem muita opção, pensando que o pagamento do Zulu mal daria pro salário de nós duas, que dirá jogando a gente pro fim da fila.

O mês é setembro. Em agosto eu tinha pagado alguns meses de aluguel antecipado. Rapidamente fiz algumas contas de cabeça. O aluguel tá pago até esse mês. Outubro não, mas outubro eu só pago começo de novembro, ok... a luz, bom, eu só uso geladeira e chuveiro, basicamente. Acabou banho no inverno. Ainda bem que esquentou um pouco esses dias. O supermercado, preciso refazer alguns cálculos, mas acho que é isso mesmo, os cupons do ifood devem ajudar sim, não é possível que não... vou manter esse mês e ver o impacto.

Graças a Deus eu tinha dinheiro. Não queria nem ter que pensar em fazer essas contas, mas eu sabia que nos últimos meses tinha levado um estilo de vida sem nenhum luxo, mas com bastante conforto, e isso teria que mudar. Com o que eu tenho guardado, deve dar pra pagar as contas até o fim do meu contrato de aluguel. Depois eu recalculo a rota. Preciso driblar o cansaço, editar meu currículo, recomeçar desde já essa procura por outra oportunidade...

Ainda bem que eu tenho essa grana guardada e tenho pra onde voltar, se eu precisar.
Tudo o que eu mais queria era ficar perto dos meus pais de novo. Tudo o que não queria, era voltar a morar com eles.
Ainda bem que eu tenho um pouco de dinheiro guardado. Eu tinha mais, mas gastei tanto do ano passado pra cá... nem deu tempo de recuperar...

Dinheiro eu ainda tenho. Já não tenho sonhos.

Felipe foi embora daqui ontem dizendo "amanhã eu volto, linda". Hoje ele não falou nada.
Sabe, não que eu tivesse com muito clima e não que eu fosse a melhor companhia, mas depois de uma notícia dessas, seria bom dormir de conchinha.
Um abraço é gratuito. Amar não custa. Esse mimo seria bom. Acordar e tomar um café preto com uma panqueca doce de frutas. Celebrar o que há na geladeira! 

Mas não foi dessa vez. Fiquei só eu e Maria Julia de novo, minha planta. Ela tem me feito muita companhia ultimamente, mais do que o normal. Às vezes eu até me preocupo um pouco com isso, mas olho ao redor e as outras preocupações são tantas que abafam essa.

Estranhamente, de manhã costuma ser pior.
A sobriedade não perdoa.

27.7.21

Porto seguro

A dupla sentava-se lado a lado, posicionados na diagonal, o corpo de ambos voltados um para o outro, a cerca de um metro de distância, e a mente distante, olhos mirando o fim de tarde. Mariazinha nunca havia visitado um porto. Ambos curtiam um silêncio confortável. Tinham sempre muito o que conversar, mas a verdadeira conexão sempre se fez no silêncio. Acostumaram-se à contemplação.

- Será que é a gente?
- O que?
- As histórias que eles contam. Será que são sobre a gente? Será que nós somos eles?
- Como assim? Do que você tá falando? Tá doida?
- Não!!! Eu to falando o seguinte: será que esse tempo todo a gente tava só se perdendo nos outros? Pra depois se encontrar de novo?

Ele ficou mudo.
Mas emitiu uma micro expressão de felicidade.

24.7.21

Fardo(r)

Lembra quando roubaram a bicicleta dele e ele pareceu ficar sem chão?
Você imediatamente pensou "Como é que eu posso tirar essa dor dele?".
E pensou em algo que faria sentido: "Você não é músico? Transforma essa experiência em música... faz uma música sobre a relação que você tinha com sua bike, vai te ajudar a lidar com o luto!".

Eis que surgiu "Minha Negra", uma música de 4 minutos que te faz sentir o vento no rosto enquanto escuta, e que depois viria a compor todo um álbum autoral instrumental.

Você sempre teve a sensibilidade de dividir a dor com o outro, de olhar pras pessoas e interpretá-las. Faz um esforço enorme pra descobrir o que faria sentido pras pessoas nas horas que elas mais precisam... mas sempre se sentiu sozinha.

E agora como é que esse outro pode, sabendo da sua condição de agora, virar as costas e ir embora, te deixar sozinha? 

18.7.21

Cimento molhado

Eu não sei se é depressão ou qualquer coisa que o valha, mas não estou nada bem.

Um egoísmo ético me submeteu a essa condição: o psquiatra disse que eu estava desesperada por um rótulo, e por isso ele não me daria um. A psicóloga disse que não importava o CID, que ela trataria a Thaís, independente do diagnóstico.

Eu me mudei, meu convênio não autorizou um tratamento remoto e eu não tive "tempo" (entenda como quiser) pra buscar novos profissionais aqui em Ouro Preto.

Agora me encontro assim: uma sequência interminável de surtos, variações de humor, angústia, ansiedade e uma falta de sentido absoluto em qualquer coisa.
Nada faz sentido.

Seria a pandemia?
Ou seria minha cabeça adoecida?

Domingo e o despertador tocou às 8:45h, fiquei na cama por 1h.
Meu namorado disse que sonhou comigo. Porque não conta logo do que se trata? Se eu pergunto o que era ele nunca se lembra mesmo.
Eu sonhei com minha família e alguns amigos, estávamos num sítio, curtindo uma festa bem da loucurada, mas não comentei com ninguém.

Levantei e fui ao banheiro.
Meu irmão me ligou. Uma, duas...
"Minha mãe fofocou com ele que eu não estou bem, certeza."

Uma graça que eles se mobilizem e venham me procurar.
Mas porque isso me incomoda?

Choro de solidão e repilo quem sem aproxima.
Eu não consigo entender o que se passa.

Talvez eu esteja na fase de consertar aquele buraco na calçada, e quando o cimento ainda tá fresco chega alguém pisando com uma cesta de café da manhã nas mãos e um sorriso no rosto.

Como eu deveria reagir?

30.5.21

Se hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas, ontem é o que?

Qual a pior constatação que você já fez na vida?

Provável que essa pergunta seja cretina demais pra ser levada a sério. Não faremos apenas uma única constatação difícil na vida. Acredito que faremos diversas, de acordo com os diferentes momentos e contextos que vivemos.

Era domingo, o dia estava lindo e Mariazinha sentia-se cheia de vida.
Porém, nada que fizesse iria lhe satisfazer.
Nada era suficiente.

Foi então que Mariazinha cruzou o portal, aquele que desacelera todas as frases que giram pela sua cabeça. Com os pensamentos mais lentos, Mariazinha conseguia agora observar cada um deles. E ficou assim por muito tempo, como quem monta um quebra-cabeça, buscando cada peça no leito de um rio. Organizando-os fez uma triste constatação: queria viver noutro tempo. Um tempo conhecido e seguro. Queria viver no passado. Queria viajar no tempo?

Ora, Mariazinha. Mas isso é ridículo. É ridículo porque é impossível!
Duvidamos ainda de tanta coisa que ignoramos, mas, se há uma verdade absoluta, é a de que o tempo não para e nem volta.
Nem sequer se reproduz, eu ouso dizer! Pois uma vez que ele tenha impresso em ti seus efeitos, haverá sempre uma marca que você levará pra onde - ou quando - quer que você vá.

Você pode até usar das suas bruxarias pra manipular o tempo, aumentar ou diminuir a velocidade com que ele passa... Mas você sabe que é incapaz de fazê-lo voltar, porque você sempre levará o presente pra qualquer lugar onde esteja, inclusive no passado.

Desejar irracionalmente o impossível, sim, é tão ruim quanto parece.
É querer o que você não queria querer.

3.1.21

Pandemônio.

Eu não sei nem por onde começar.

9 meses de convivência "forçada" com as mesmas duas únicas pessoas.
Pronto, já é o suficiente pra trazer lágrimas aos olhos.

Eu as contenho antes mesmo que elas os façam brilhar.
Virou hábito soterrar emoções.



Tanto sofrimento em virtude da solidão, do isolamento.
Até pouco tempo atrás, tudo o que eu desejava era a presença e o assunto.
Mas a verdade é que vocês não me interessam mais.
Para além de desinteressantes, mostraram-se fúteis, egoístas, repelentes, indesejáveis.


Disseram que nunca mais viveríamos como antes.
Estar viva pra conferir isso de perto tem sido um ato de resistência.

Muitos pensamentos de auto-extermínio. Muitos, muitos.
Me protegem os fatos de que eu talvez não teria a perícia e nem a coragem.
Me assusta o perigo de acontecer num impulso. Da forma errada, sem timing, sem recurso.

Não, eu não o faria.
Condenada a sofrer sem cessar, minha penitência parece estar só começando, afinal, faz poucos dias que me dei conta de que não estou triste, sou.

Ser triste sem motivo é a parte mais triste.
Ser triste sem direito a sê-lo é a parte mais cruel.


Vasculhar em tudo que é canto pra procurar o motivo de tanta tristeza é tortura.
E é resposta encontrar o desemprego, a juventude que se foi, a solidão, a ignorância, a carência.

Nenhuma perspectiva pro futuro.
Nenhum sonho realizado.

A identificação de o que é ter um verdadeiro sonho.
O contraponto acerca dos antigos delírios que se passavam por sonhos.
Ou a percepção de que sim, sonhava, mas deles dei cabo?

Essa cegueira ao olhar pra frente.
A dúvida, o medo, ao olhar pros lados.
Pra trás... eu procuro não olhar.

Pelo menos não de propósito, já que tenho vivido há tanto tempo usando os óculos do passado.

Um dia
Depois
Do outro

Hoje é mais um dia
E amanhã hoje é um dia a menos.