- Será que aconteceu alguma coisa com o Rafael? Ele tá sumido, né?
- Nossa, é verdade...
Rafael não aparecia muito na padaria, então eu já estava acostumada com a ausência do chefe, enquanto eu e Carol dávamos nosso melhor, semana após semana, pro negócio continuar de pé.
- Eu mandei uma mensagem pra ele na sexta-feira e ele não me respondeu até agora!
- Realmente, Carol... eu avisei no grupo que a gente vai ter uma encomenda grande pra essa semana e ele também não falou nada, não comemorou... nem chegou a ler a mensagem! Deve ter acontecido alguma coisa. Bom, vamos esperar, né...
- Realmente, Carol... eu avisei no grupo que a gente vai ter uma encomenda grande pra essa semana e ele também não falou nada, não comemorou... nem chegou a ler a mensagem! Deve ter acontecido alguma coisa. Bom, vamos esperar, né...
No meio da tarde, Rafael ligou. Carol atendeu animada, mas logo vi que minha suspeita se confirmava. Algo tinha sim acontecido.
- Não, por mim tudo bem, Rafael... vou falar com ela!
Após desligar o telefone, Carol confirma:
- Rafael falou que tá acompanhando a mãe dele, que passou mal no fim de semana. E ele também falou que esse mês não tem dinheiro pra pagar nosso salário. Se a gente pode esperar entrar o pagamento da encomenda que o Zulu fez, pra pagar as contas fixas, aluguel, etc, e depois pagar a gente...
- É, eu imaginei... - respondi sem muito ânimo e também sem muita opção, pensando que o pagamento do Zulu mal daria pro salário de nós duas, que dirá jogando a gente pro fim da fila.
O mês é setembro. Em agosto eu tinha pagado alguns meses de aluguel antecipado. Rapidamente fiz algumas contas de cabeça. O aluguel tá pago até esse mês. Outubro não, mas outubro eu só pago começo de novembro, ok... a luz, bom, eu só uso geladeira e chuveiro, basicamente. Acabou banho no inverno. Ainda bem que esquentou um pouco esses dias. O supermercado, preciso refazer alguns cálculos, mas acho que é isso mesmo, os cupons do ifood devem ajudar sim, não é possível que não... vou manter esse mês e ver o impacto.
Graças a Deus eu tinha dinheiro. Não queria nem ter que pensar em fazer essas contas, mas eu sabia que nos últimos meses tinha levado um estilo de vida sem nenhum luxo, mas com bastante conforto, e isso teria que mudar. Com o que eu tenho guardado, deve dar pra pagar as contas até o fim do meu contrato de aluguel. Depois eu recalculo a rota. Preciso driblar o cansaço, editar meu currículo, recomeçar desde já essa procura por outra oportunidade...
Ainda bem que eu tenho essa grana guardada e tenho pra onde voltar, se eu precisar.
Tudo o que eu mais queria era ficar perto dos meus pais de novo. Tudo o que não queria, era voltar a morar com eles.
Ainda bem que eu tenho um pouco de dinheiro guardado. Eu tinha mais, mas gastei tanto do ano passado pra cá... nem deu tempo de recuperar...
Dinheiro eu ainda tenho. Já não tenho sonhos.
Felipe foi embora daqui ontem dizendo "amanhã eu volto, linda". Hoje ele não falou nada.
Sabe, não que eu tivesse com muito clima e não que eu fosse a melhor companhia, mas depois de uma notícia dessas, seria bom dormir de conchinha.
Um abraço é gratuito. Amar não custa. Esse mimo seria bom. Acordar e tomar um café preto com uma panqueca doce de frutas. Celebrar o que há na geladeira!
Mas não foi dessa vez. Fiquei só eu e Maria Julia de novo, minha planta. Ela tem me feito muita companhia ultimamente, mais do que o normal. Às vezes eu até me preocupo um pouco com isso, mas olho ao redor e as outras preocupações são tantas que abafam essa.
Estranhamente, de manhã costuma ser pior.
A sobriedade não perdoa.

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