27.7.21

Porto seguro

A dupla sentava-se lado a lado, posicionados na diagonal, o corpo de ambos voltados um para o outro, a cerca de um metro de distância, e a mente distante, olhos mirando o fim de tarde. Mariazinha nunca havia visitado um porto. Ambos curtiam um silêncio confortável. Tinham sempre muito o que conversar, mas a verdadeira conexão sempre se fez no silêncio. Acostumaram-se à contemplação.

- Será que é a gente?
- O que?
- As histórias que eles contam. Será que são sobre a gente? Será que nós somos eles?
- Como assim? Do que você tá falando? Tá doida?
- Não!!! Eu to falando o seguinte: será que esse tempo todo a gente tava só se perdendo nos outros? Pra depois se encontrar de novo?

Ele ficou mudo.
Mas emitiu uma micro expressão de felicidade.

24.7.21

Fardo(r)

Lembra quando roubaram a bicicleta dele e ele pareceu ficar sem chão?
Você imediatamente pensou "Como é que eu posso tirar essa dor dele?".
E pensou em algo que faria sentido: "Você não é músico? Transforma essa experiência em música... faz uma música sobre a relação que você tinha com sua bike, vai te ajudar a lidar com o luto!".

Eis que surgiu "Minha Negra", uma música de 4 minutos que te faz sentir o vento no rosto enquanto escuta, e que depois viria a compor todo um álbum autoral instrumental.

Você sempre teve a sensibilidade de dividir a dor com o outro, de olhar pras pessoas e interpretá-las. Faz um esforço enorme pra descobrir o que faria sentido pras pessoas nas horas que elas mais precisam... mas sempre se sentiu sozinha.

E agora como é que esse outro pode, sabendo da sua condição de agora, virar as costas e ir embora, te deixar sozinha? 

18.7.21

Cimento molhado

Eu não sei se é depressão ou qualquer coisa que o valha, mas não estou nada bem.

Um egoísmo ético me submeteu a essa condição: o psquiatra disse que eu estava desesperada por um rótulo, e por isso ele não me daria um. A psicóloga disse que não importava o CID, que ela trataria a Thaís, independente do diagnóstico.

Eu me mudei, meu convênio não autorizou um tratamento remoto e eu não tive "tempo" (entenda como quiser) pra buscar novos profissionais aqui em Ouro Preto.

Agora me encontro assim: uma sequência interminável de surtos, variações de humor, angústia, ansiedade e uma falta de sentido absoluto em qualquer coisa.
Nada faz sentido.

Seria a pandemia?
Ou seria minha cabeça adoecida?

Domingo e o despertador tocou às 8:45h, fiquei na cama por 1h.
Meu namorado disse que sonhou comigo. Porque não conta logo do que se trata? Se eu pergunto o que era ele nunca se lembra mesmo.
Eu sonhei com minha família e alguns amigos, estávamos num sítio, curtindo uma festa bem da loucurada, mas não comentei com ninguém.

Levantei e fui ao banheiro.
Meu irmão me ligou. Uma, duas...
"Minha mãe fofocou com ele que eu não estou bem, certeza."

Uma graça que eles se mobilizem e venham me procurar.
Mas porque isso me incomoda?

Choro de solidão e repilo quem sem aproxima.
Eu não consigo entender o que se passa.

Talvez eu esteja na fase de consertar aquele buraco na calçada, e quando o cimento ainda tá fresco chega alguém pisando com uma cesta de café da manhã nas mãos e um sorriso no rosto.

Como eu deveria reagir?