12.6.22

Nenhuma resposta, mas um punhado de folhas sagradas

Que não curam, não afastam do mal.
Alienam e procrastinam de uma forma muito prejudicial.
Mas quando me dou conta disso, é contar até 3 e recorrer de novo a ela.

(...)

Ouço os gritos animados dos amigos se reunindo.
Olho pela janela e vejo o casal chegando do passeio com o cachorro.
Abro a rede social, e outro casal está viajando pra visitar um museu.
E as pessoas se trajaram pras festividades juninas.

Eu estou no meu próprio fuso, isolado e agonizante.
Sem hora, sem tema, sem cultura.

Todos os dias são iguais, sem novidade.
Sim, redundantemente pacato.

O único ciclo que eu noto é o salarial.
Quando preencho o último dia do mês na folha de ponto e faço a foto pra enviar para a contabilidade, não consigo fugir do pensamento de missão cumprida, de ter sobrevivido a mais um mês.

Já nem sei se essa expressão é adequada mais. Sobreviver.
Não é sobre vida mais.
É sobre estar durando somente...


9.5.22

Tem alguém aí?

Hoje eu chorei um dos meus choros mais doídos.
Chorei ao constatar o quanto eu vou me expor.
(Tentando) agendar uma consulta com um psiquiatra pra chorar na frente de um completo desconhecido.

Não que fosse a primeira vez.
Eu já fiz terapia antes.
Aquela tortura de ficar se expondo.
Já chorei na frente de um, dois, três profissionais diferentes.

Estou há +de ano adiando pra buscar os dois próximos (psiquiatra e piscologo/a) que vão assistir a essa cena.
Mas é a primeira vez que me sinto bloqueada de uma forma tão humilhante.

Antes, eu chorava com desconhecidos por opção.
Porque era mais confortável.
Porque era reconfortante.

Agora, chorarei com desconhecidos por falta de opção.
Por completa falta de uma rede de apoio que já não esteja saturada com meus surtos.

É a primeira vez que me sinto não só um caso extremo, mas um caso digno de pena.
Completamente isolada nessa cidade e pagando pra alguém reservar um horário pra me ouvir chorar.

Aliás, tentando.
O telefone da clínica não atendeu.

14.2.22

Você tem fome de que?

19:01h.

To com fome.
Aquela sensação do estômago tão vazio que a gente fica meio curvado, porque se esticar, ele dói.

Quando era quase 17h, eu já tava com bastante fome no trampo. Almocei 12:30h e não comi mais nada.
A ideia era chegar em casa e rangar.

Faz uns 10 dias que eu to programando fazer compra no supermercado, mas sempre adio por qualquer motivo.
Meu nível de fobia social está ficando muito extremo e preocupante.

Eu preciso fazer compra e lembro do cara do hortifruti que fica me seguindo com o olhar, desanimo de ir.
Provavelmente é coisa da minha cabeça. Mas só de pensar na hipótese dele saber quem eu sou e ficar me "marcando" já é suficiente pra não querer ir lá de novo.

Rolou o mesmo com o mercadinho aqui de perto.
Inúmeras vezes eu passei pela rua paralela, porque sabia que se eu passasse por lá e o funcionário me visse, ele iria me cumprimentar.
Já deixei de comprar pão porque não queria ter que "socializar".
Queria comprar pão pelo aplicativo.

Quando deu 17h hoje eu sabia que ia precisar comprar pão, porque o clima está chuvoso e eu não precisava de outro motivo pra não ir no supermercado, mas também não tinha quase nada pra comer em casa.

Não posso pedir comida pelo aplicativo de novo, isso tá acabando com as minhas economias.
Pra piorar, tem 2 parcelas atrasadas de salário e, desde que um cliente foi grosseiro comigo há uma semana, eu sinto que todos serão. Está difícil de fechar os serviços, passar os valores, fazer as cobranças.

Vou ter que comprar pão. Ainda bem que tenho essa saída!
Comprei 4 pães e segui pra casa. O funcionário que me conhece pelo nome não estava lá, então foi rápido e indolor.

Chegando em casa, encontrei a conta de luz.
Passei um tempo questionando meus hábitos, não vi sentido no valor daquela conta ser tão discrepante com relação aos meus vizinhos...
Desabafei com meu namorado:


"[17:19, 14/02/2022] Thaís Emídio: Cara... Fiquei bolada aqui agora. Chegaram as contas de luz, fui separar a dos vizinhos e olhei o valor por curiosidade, pra ter um parâmetro mesmo (nunca tinha olhado)
[17:19, 14/02/2022] Thaís Emídio: A deles veio tipo 80 e 60 reais... A minha 100 😳
[17:20, 14/02/2022] Thaís Emídio: Pq será??? Será que tô lavando muita roupa? Será que é chuveiro, banho demorado? Geladeira? Computador ligado o dia inteiro? Pq nem Air fryer eu uso aqui desde dezembro. Projetor eu tô segurando a onda tbm... Não entendi.
[17:21, 14/02/2022] Thaís Emídio: Po, fiquei chateada. Eu já sou meio infeliz em OP, se tiver que ficar restringindo de usar PC, tomar um banho bom... 😞 Noss... Vou ser derrubada hard pela depressão. Só tristeza..."

Não foi consciente, mas fiquei pelo menos 1h no escuro depois disso. Não acendi nenhuma luz e nem liguei o computador.

Fiquei com o celular na mão, eternamente na internet infinita. Infernet.
Vi as notícias no grupo da família. Meu pai quase nunca fala por lá, minha mãe é bem ativa.
Sonhei com meu pai, passei muito tempo com ele em sonho. Foi reconfortante, porque eu não tenho coragem de ligar e aparecer só chorando e triste com eles. É uma faca de dois gumes e os dois me atravessam na ida e na volta. Chorei de saudade, de medo... de medo de novo.

Tomei banho. Chuveiro no verão, tentei ser mais rápida.
Por um momento, me peguei perdida em pensamentos no final do banho.
Lembrei que precisava pensar num lugar que consumisse menos energia e desliguei o chuveiro.
Acendi as luzes, tomei um "yakult" genérico. Aproveitei pra tirar a margarina da geladeira e comer um pão.

19:12h e ainda não comi.
Não sei o quão inconsciente tem sido minhas economias de refeição.
Não consigo afastar o pensamento de que se eu comesse o pão antes das 19h, eu iria comer o que lá pelas 21h?

Pipoca, caldo de ervilha... poderia fazer um macarrão, mas to com tanta preguiça de lavar as panelas.

19:13h, sinto refluxo subindo pela garganta.
Esse ardor de estômago vazio me faz lembrar que eu não precisava estar cultivando essa gastrite.
Eu tenho a quem recorrer e não precisava me colocar nessa situação.

Não sei se é orgulho ou determinação, eu só sei que não quero dar o braço a torcer.

[18:27, 14/02/2022] Thaís Emídio: Tô com muitas saudades de vocês!
[18:28, 14/02/2022] Mey: Vem pra cá!
[18:28, 14/02/2022] Mey: Ops
[18:28, 14/02/2022] Mey: Sorry


Confesso que não entendi bem esse "ato falho".
Mas é bom renovar os votos, eu sei exatamente onde eu sou bem vinda.

E sei bem onde não sou.

Vou comer um pão.
Queria tomar com leite, mas vou guardar o que tem na geladeira pro café da manhã de amanhã. 

19.9.21

Que nem Jesus

Era domingo, nem tão de manhã assim.

Terceiro dia de sofrimento.
Tentei mudar minha atitude, com um certo atraso, já que só saí da cama 2 horas depois de já estar acordada, quando comecei a ficar zonza de fome e estava quase destruindo meu celular.

Me comprometi a ficar o mais longe possível dele e me abri pra ouvir uma seleção de novidades, recomendações do aplicativo.
Muito profundas. Incrível o lugar que a música preenche na minha vida.

Por um segundo, me distraí e olhei pros bilhetes colados na porta da geladeira.
Em um deles, a letra da minha mãe assinou:
"Beijos nossos, com saudade! Mamãe e Papai"

Será que um dia a gente cresce realmente?

Eu só sei que não havia lavado o rosto ainda, a urgência por preparar qualquer coisa pra comer foi maior.
E agora já não fazia diferença: meu rosto se lavava em lágrimas, de dentro pra fora.

(...)

Eyes Without A Face - Javiera, Los Imposibles.

Essa começou doendo, tocando lá no fundo.
A nostalgia é espinhosa.
Mas com o tempo, fui ficando mais confortável. Essa versão é a união perfeita de uma música que meus pais adorariam ouvir, repaginada, mais moderna e muito, muito gostosa.

Preciso sobreviver pra ouvir essa com eles. É só isso. Aguente firme!

7.9.21

Eu só quero amar.

No meio da manhã, Carolina me alertou de algo que eu nem tinha percebido:
- Será que aconteceu alguma coisa com o Rafael? Ele tá sumido, né?
- Nossa, é verdade...

Rafael não aparecia muito na padaria, então eu já estava acostumada com a ausência do chefe, enquanto eu e Carol dávamos nosso melhor, semana após semana, pro negócio continuar de pé.
- Eu mandei uma mensagem pra ele na sexta-feira e ele não me respondeu até agora!
- Realmente, Carol... eu avisei no grupo que a gente vai ter uma encomenda grande pra essa semana e ele também não falou nada, não comemorou... nem chegou a ler a mensagem! Deve ter acontecido alguma coisa. Bom, vamos esperar, né...

No meio da tarde, Rafael ligou. Carol atendeu animada, mas logo vi que minha suspeita se confirmava. Algo tinha sim acontecido.
- Não, por mim tudo bem, Rafael... vou falar com ela!

Após desligar o telefone, Carol confirma:
- Rafael falou que tá acompanhando a mãe dele, que passou mal no fim de semana. E ele também falou que esse mês não tem dinheiro pra pagar nosso salário. Se a gente pode esperar entrar o pagamento da encomenda que o Zulu fez, pra pagar as contas fixas, aluguel, etc, e depois pagar a gente...
- É, eu imaginei... - respondi sem muito ânimo e também sem muita opção, pensando que o pagamento do Zulu mal daria pro salário de nós duas, que dirá jogando a gente pro fim da fila.

O mês é setembro. Em agosto eu tinha pagado alguns meses de aluguel antecipado. Rapidamente fiz algumas contas de cabeça. O aluguel tá pago até esse mês. Outubro não, mas outubro eu só pago começo de novembro, ok... a luz, bom, eu só uso geladeira e chuveiro, basicamente. Acabou banho no inverno. Ainda bem que esquentou um pouco esses dias. O supermercado, preciso refazer alguns cálculos, mas acho que é isso mesmo, os cupons do ifood devem ajudar sim, não é possível que não... vou manter esse mês e ver o impacto.

Graças a Deus eu tinha dinheiro. Não queria nem ter que pensar em fazer essas contas, mas eu sabia que nos últimos meses tinha levado um estilo de vida sem nenhum luxo, mas com bastante conforto, e isso teria que mudar. Com o que eu tenho guardado, deve dar pra pagar as contas até o fim do meu contrato de aluguel. Depois eu recalculo a rota. Preciso driblar o cansaço, editar meu currículo, recomeçar desde já essa procura por outra oportunidade...

Ainda bem que eu tenho essa grana guardada e tenho pra onde voltar, se eu precisar.
Tudo o que eu mais queria era ficar perto dos meus pais de novo. Tudo o que não queria, era voltar a morar com eles.
Ainda bem que eu tenho um pouco de dinheiro guardado. Eu tinha mais, mas gastei tanto do ano passado pra cá... nem deu tempo de recuperar...

Dinheiro eu ainda tenho. Já não tenho sonhos.

Felipe foi embora daqui ontem dizendo "amanhã eu volto, linda". Hoje ele não falou nada.
Sabe, não que eu tivesse com muito clima e não que eu fosse a melhor companhia, mas depois de uma notícia dessas, seria bom dormir de conchinha.
Um abraço é gratuito. Amar não custa. Esse mimo seria bom. Acordar e tomar um café preto com uma panqueca doce de frutas. Celebrar o que há na geladeira! 

Mas não foi dessa vez. Fiquei só eu e Maria Julia de novo, minha planta. Ela tem me feito muita companhia ultimamente, mais do que o normal. Às vezes eu até me preocupo um pouco com isso, mas olho ao redor e as outras preocupações são tantas que abafam essa.

Estranhamente, de manhã costuma ser pior.
A sobriedade não perdoa.

27.7.21

Porto seguro

A dupla sentava-se lado a lado, posicionados na diagonal, o corpo de ambos voltados um para o outro, a cerca de um metro de distância, e a mente distante, olhos mirando o fim de tarde. Mariazinha nunca havia visitado um porto. Ambos curtiam um silêncio confortável. Tinham sempre muito o que conversar, mas a verdadeira conexão sempre se fez no silêncio. Acostumaram-se à contemplação.

- Será que é a gente?
- O que?
- As histórias que eles contam. Será que são sobre a gente? Será que nós somos eles?
- Como assim? Do que você tá falando? Tá doida?
- Não!!! Eu to falando o seguinte: será que esse tempo todo a gente tava só se perdendo nos outros? Pra depois se encontrar de novo?

Ele ficou mudo.
Mas emitiu uma micro expressão de felicidade.

24.7.21

Fardo(r)

Lembra quando roubaram a bicicleta dele e ele pareceu ficar sem chão?
Você imediatamente pensou "Como é que eu posso tirar essa dor dele?".
E pensou em algo que faria sentido: "Você não é músico? Transforma essa experiência em música... faz uma música sobre a relação que você tinha com sua bike, vai te ajudar a lidar com o luto!".

Eis que surgiu "Minha Negra", uma música de 4 minutos que te faz sentir o vento no rosto enquanto escuta, e que depois viria a compor todo um álbum autoral instrumental.

Você sempre teve a sensibilidade de dividir a dor com o outro, de olhar pras pessoas e interpretá-las. Faz um esforço enorme pra descobrir o que faria sentido pras pessoas nas horas que elas mais precisam... mas sempre se sentiu sozinha.

E agora como é que esse outro pode, sabendo da sua condição de agora, virar as costas e ir embora, te deixar sozinha?