24.7.21

Fardo(r)

Lembra quando roubaram a bicicleta dele e ele pareceu ficar sem chão?
Você imediatamente pensou "Como é que eu posso tirar essa dor dele?".
E pensou em algo que faria sentido: "Você não é músico? Transforma essa experiência em música... faz uma música sobre a relação que você tinha com sua bike, vai te ajudar a lidar com o luto!".

Eis que surgiu "Minha Negra", uma música de 4 minutos que te faz sentir o vento no rosto enquanto escuta, e que depois viria a compor todo um álbum autoral instrumental.

Você sempre teve a sensibilidade de dividir a dor com o outro, de olhar pras pessoas e interpretá-las. Faz um esforço enorme pra descobrir o que faria sentido pras pessoas nas horas que elas mais precisam... mas sempre se sentiu sozinha.

E agora como é que esse outro pode, sabendo da sua condição de agora, virar as costas e ir embora, te deixar sozinha? 

18.7.21

Cimento molhado

Eu não sei se é depressão ou qualquer coisa que o valha, mas não estou nada bem.

Um egoísmo ético me submeteu a essa condição: o psquiatra disse que eu estava desesperada por um rótulo, e por isso ele não me daria um. A psicóloga disse que não importava o CID, que ela trataria a Thaís, independente do diagnóstico.

Eu me mudei, meu convênio não autorizou um tratamento remoto e eu não tive "tempo" (entenda como quiser) pra buscar novos profissionais aqui em Ouro Preto.

Agora me encontro assim: uma sequência interminável de surtos, variações de humor, angústia, ansiedade e uma falta de sentido absoluto em qualquer coisa.
Nada faz sentido.

Seria a pandemia?
Ou seria minha cabeça adoecida?

Domingo e o despertador tocou às 8:45h, fiquei na cama por 1h.
Meu namorado disse que sonhou comigo. Porque não conta logo do que se trata? Se eu pergunto o que era ele nunca se lembra mesmo.
Eu sonhei com minha família e alguns amigos, estávamos num sítio, curtindo uma festa bem da loucurada, mas não comentei com ninguém.

Levantei e fui ao banheiro.
Meu irmão me ligou. Uma, duas...
"Minha mãe fofocou com ele que eu não estou bem, certeza."

Uma graça que eles se mobilizem e venham me procurar.
Mas porque isso me incomoda?

Choro de solidão e repilo quem sem aproxima.
Eu não consigo entender o que se passa.

Talvez eu esteja na fase de consertar aquele buraco na calçada, e quando o cimento ainda tá fresco chega alguém pisando com uma cesta de café da manhã nas mãos e um sorriso no rosto.

Como eu deveria reagir?

30.5.21

Se hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas, ontem é o que?

Qual a pior constatação que você já fez na vida?

Provável que essa pergunta seja cretina demais pra ser levada a sério. Não faremos apenas uma única constatação difícil na vida. Acredito que faremos diversas, de acordo com os diferentes momentos e contextos que vivemos.

Era domingo, o dia estava lindo e Mariazinha sentia-se cheia de vida.
Porém, nada que fizesse iria lhe satisfazer.
Nada era suficiente.

Foi então que Mariazinha cruzou o portal, aquele que desacelera todas as frases que giram pela sua cabeça. Com os pensamentos mais lentos, Mariazinha conseguia agora observar cada um deles. E ficou assim por muito tempo, como quem monta um quebra-cabeça, buscando cada peça no leito de um rio. Organizando-os fez uma triste constatação: queria viver noutro tempo. Um tempo conhecido e seguro. Queria viver no passado. Queria viajar no tempo?

Ora, Mariazinha. Mas isso é ridículo. É ridículo porque é impossível!
Duvidamos ainda de tanta coisa que ignoramos, mas, se há uma verdade absoluta, é a de que o tempo não para e nem volta.
Nem sequer se reproduz, eu ouso dizer! Pois uma vez que ele tenha impresso em ti seus efeitos, haverá sempre uma marca que você levará pra onde - ou quando - quer que você vá.

Você pode até usar das suas bruxarias pra manipular o tempo, aumentar ou diminuir a velocidade com que ele passa... Mas você sabe que é incapaz de fazê-lo voltar, porque você sempre levará o presente pra qualquer lugar onde esteja, inclusive no passado.

Desejar irracionalmente o impossível, sim, é tão ruim quanto parece.
É querer o que você não queria querer.

3.1.21

Pandemônio.

Eu não sei nem por onde começar.

9 meses de convivência "forçada" com as mesmas duas únicas pessoas.
Pronto, já é o suficiente pra trazer lágrimas aos olhos.

Eu as contenho antes mesmo que elas os façam brilhar.
Virou hábito soterrar emoções.



Tanto sofrimento em virtude da solidão, do isolamento.
Até pouco tempo atrás, tudo o que eu desejava era a presença e o assunto.
Mas a verdade é que vocês não me interessam mais.
Para além de desinteressantes, mostraram-se fúteis, egoístas, repelentes, indesejáveis.


Disseram que nunca mais viveríamos como antes.
Estar viva pra conferir isso de perto tem sido um ato de resistência.

Muitos pensamentos de auto-extermínio. Muitos, muitos.
Me protegem os fatos de que eu talvez não teria a perícia e nem a coragem.
Me assusta o perigo de acontecer num impulso. Da forma errada, sem timing, sem recurso.

Não, eu não o faria.
Condenada a sofrer sem cessar, minha penitência parece estar só começando, afinal, faz poucos dias que me dei conta de que não estou triste, sou.

Ser triste sem motivo é a parte mais triste.
Ser triste sem direito a sê-lo é a parte mais cruel.


Vasculhar em tudo que é canto pra procurar o motivo de tanta tristeza é tortura.
E é resposta encontrar o desemprego, a juventude que se foi, a solidão, a ignorância, a carência.

Nenhuma perspectiva pro futuro.
Nenhum sonho realizado.

A identificação de o que é ter um verdadeiro sonho.
O contraponto acerca dos antigos delírios que se passavam por sonhos.
Ou a percepção de que sim, sonhava, mas deles dei cabo?

Essa cegueira ao olhar pra frente.
A dúvida, o medo, ao olhar pros lados.
Pra trás... eu procuro não olhar.

Pelo menos não de propósito, já que tenho vivido há tanto tempo usando os óculos do passado.

Um dia
Depois
Do outro

Hoje é mais um dia
E amanhã hoje é um dia a menos.

5.1.16

Não se faz amigos trabalhando

A "louca dos gatos" poderia ser a "louca dos amigos".
Mas vão-se os amigos, ficam-se os gatos...

14.12.15

2015 - Balanço

2015 foi um ano sem dúvidas muito especial.
Entre altos e baixos, a única certeza que tenho é de que não foi sempre fácil.

Foi o ano em que eu mais cortei o cabelo.
Perdi a conta de quantas vezes passei a tesoura na cabeleira e junto com isso aprendi uma bela lição que eu lutava pra aprender por muito tempo: o desapego.

Desapego emocional, de paradigmas, de bens materiais...
Um ano de uma necessária reciclagem de quem eu era e do que eu tinha.
E foi muito importante deixar algumas coisas e pessoas irem, para que outras pudessem surgir...

Achei que explanaria por muito mais tempo sobre tudo isso, mas agora vejo que posso eleger a palavra de 2015 como sendo RECICLAGEM e dar uma bela resumida a partir daí.
Até mesmo porque nem tudo precisou ser necessariamente perdido.
Muita coisa pode ser reaproveitada, reutilizada, reinventada, assumindo uma nova forma e uma nova posição na minha vida, sem que eu precisasse abrir mão delas.

Acho que adquiri uma maturidade pra lidar com algumas situações e sentimentos que me proporcionaram um pouco mais de cautela também.

Redução drástica nos níveis de ansiedade - uma tendência que já vinha de alguns anos passados - fizeram com que eu ficasse muito menos frustrada e recebesse muito mais surpresas.
Assim foi mais fácil lidar com alguns momentos críticos.

A passagem de tempo merece destaque.
Respirar e sentir que certas coisas fogem do nosso controle e que para que aconteçam basta... es-pe-rar.

Aquele show que você quer ir, mas só vai acontecer daqui a 3 meses.
Aquela pessoa que você marcou várias vezes de encontrar, mas ainda não deu certo.
Aquela ferida que parece tão diariamente presente.
Aquela dor que muitas vezes insiste em permanecer.

Basta esperar.

É impossível e ninguém, repito, ninguém vai evitar que o sol nasça e se ponha no dia seguinte.
E no outro. E no outro.
E isso, magicamente, faz o tempo passar!

O show vai chegar. Oportunidades vão surgir. Nada vai dar errado pra sempre. Uma hora os fatores todos vão ser positivos e as coisas vão acontecer. A ferida diminui até sarar, e cicatrizes permanecem, mas não doem.
Não deixa de ser uma imensa lição sobre PACIÊNCIA.
E a cada dia mais eu entendo porque ela recebe o nobre título de virtude.

Mas o ano não podia ir embora sem deixar de me ensinar grandes lições que demandam profunda reflexão...

Ainda tenho um pouco de muita dificuldade em lidar com falta de reciprocidade por parte das pessoas, e esse fim de ano particularmente me trouxe sensações novas e realmente difíceis: a amizade não correspondida.

E eu que pensava que isso nem existia!
Mas eis que no auge dos meus 24 anos de vida, estou enfrentando esse novo desafio.

Amizade parece ser algo muito mais facilmente recíproca do que o amor.
A equação é simples: 2 pessoas se conhecem, compartilham gostos musicais, filosofia de vida, questões pessoais, dúvidas, conselhos, alegrias. E nem demanda uma convivência diária! Parece perfeito e tem tudo pra dar certo, não?

Mas daí simplesmente não rola. Como assim?

Uma se apega mais que a outra.
Você sente uma atração pelo estilo de vida daquela pessoa, por toda a bagagem de vida dela, o humor dela te faz bem, você sente saudade das piadas que ela conta, você tem vontade de perguntar sobre aquele sentimento ruim que a estava afligindo nos últimos dias, quando você está desestimulado ela surge cheia de energia e te contagia... Mas tudo soa estranhamente unilateral.

Esta pessoa parece ter o controle da situação de um modo que quando está disposta, a amizade acontece. E quando ela não quer: simplesmente te despreza.

Ela aparece com certa frequência te oferecendo tudo isso, mas quando você se empolga e corre pra abraçar tudo com afinco, parece inalcançável.
Ou a pessoa não se interessa muito pela sua bagagem de vida.
Ou não sente muita falta do seu humor, das suas piadas.
Não faz questão de ouvir sobre o momento excelente que você teve no fim de semana.
Não te questiona sobre aquele problema que você citou discretamente sem que ela perguntasse, na esperança de que isto virasse um assunto mais profundo entre vocês...
E a sensação que fica é essa mesmo: de que você é um idiota.

E uma sensação pior ainda toma conta: a de porque diabos você tinha que ter tomado ciência da existência daquela pessoa?
Você estava feliz vivendo sua vida com os amigos que já tem, até que aquela pessoa encantadora surge em seu caminho, te dá uma dose dela mesma; você degusta, adora, mas depois ela vira as costas como se você fosse totalmente desnecessária na vida dela.
Faz você questionar seu valor.
Será que eu não sou legal o suficiente pra ela?
Será que em algum momento ela vai precisar voltar atrás e se apoiar em mim de novo? Vai lembrar que estou aqui quando precisar de um ombro, um conselho, uma injeção de ânimo?
NÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Sentimento errado.


É, Thaís.
Acho que você estava certa no começo.
Não deve existir amizade não correspondida.
Será que isso virou paixão e eu não vi?

Será um dos primeiros dilemas que vou levar comigo para 2016?

17.10.15

Um é um monte

Mariazinha era dessas: tomava 1, 2, 3 cervejas.
Se estava num dia bom, era capaz de ficar tão feliz, se balançando na rede, ouvindo axés antigos, de 15 ou 20 anos atrás.
- Dessa ninguém lembra!
Seu pai ocupado, de um lado pro outro, sua mãe sentada por perto, ocupada.
"Continue ouvindo. Estou ocupada, mas to gostando de ouvir você ouvindo!"
E Mariazinha se chacoalhando na rede de um lado pro outro, entre um gole e outro.
Sozinha, mas totalmente plena.
E um por um vão-se embora.
Mariazinha então decide apagar as luzes e deitar na rede pra admirar as estrelas...
Mariazinha é dessas: começa uma noite bebendo, ouvindo axé e se chacoalhando na rede.
Termina deitada, ouvindo blues, olhando as estrelas, enquanto a sobriedade vem devagarinho...
E em nenhum momento se sentiu sozinha.
E era adequado - e não irônico - que terminasse a noite ouvindo "A banda de um homem só".

1.7.15

Sobre sentir saudade...

Saudade... Saudade... Saudade...

Saudade de tirar fotos, saudade do silêncio, saudade da viagem.
Saudade da galera. Saudade de ser do bando. De ter um.
Saudade dos programas. Saudade de mostrar a língua.
Saudade de virar concreto. Saudade daquela roupa.
Saudade daquela menina. Saudade daquele chão.
Saudade daquela disposição. Saudade do cabelo.
Saudade da Inés. Saudade da Pâmela.
Saudade de formar. Saudade do Orkut.
Saudade do MSN. Saudade do Fórum lonjão.
Saudade dos colares.
Saudade da sensualidade. Saudade da criatividade.
Saudade da novidade.
Saudade da novidade!
Saudade do meu Motorola "Rockr".
Saudade do sangue.