20.5.15

Mariazinha

Mariazinha era uma menina peculiar.
Mariazinha tomava chá verde com açúcar.
Mariazinha às vezes era má compreendida, mas só tinha boa vontade.
Mariazinha ganhava presentes e tinha dó de consumi-los.
Mariazinha sonhava com um mundo onde tudo durava pra sempre.
Mariazinha conheceu um moço. Esse moço morava muito longe.
Ele sempre desejava que Mariazinha estivesse disponível pra ele. E ela desejava o mesmo de volta.
Mariazinha ficava quando ele pedia. Ele não.
Aos poucos, Mariazinha entendeu que podia dizer "Não" até pra quem se gosta.
A vida seguiu e Mariazinha conheceu outro moço.
Esse moço era músico!
Mariazinha ia em todos os shows do moço.
Mariazinha dormia na mesa, mas não ia embora.
Mariazinha não curtia só a parte boa.
Mariazinha ajudava a carregar o som, a montar o som, a medir o som.
No fim da noite, Mariazinha, ajudava a desmontar o som, curtia com o moço, carregava o som.
Mariazinha foi embora pra casa a pé várias vezes, com frio, cansada, carregando peso.
Mas sempre  do lado do moço.
Mariazinha, na maioria das vezes, ficava sozinha na mesa vendo o moço.
As pessoas tinham dó dela.
Mas ela não via problemas, porque sentia prazer de estar com aquele moço.
Mariazinha estava sempre lá. O moço nem sempre.
Mariazinha às vezes pedia música de fora do repertório, mas o moço não tocava.
Depois de fazer terapia, Mariazinha entendeu que ninguém tem o direito de fazê-la se sentir não digna de merecer algo.
E então Mariazinha sentiu que não podia mais se permitir sentir-se não-recompensada.

Tem gente que faz análise superficial da Mariazinha.
Não a conhece, não sabe o que ela tem a oferecer e, principalmente, não sabe do que ela precisa pra se reinventar e seguir.
Tem gente que diz que Mariazinha não pode dar algo esperando outro algo em troca.
Mariazinha às vezes era má compreendida.
Mas só tinha boa vontade.

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