Que droga de sonho foi esse?
Que droga! Que droga!
Tinha necrofilia no primeiro sonho, e ainda assim foi tranquilo.
Achei até estranho ter acordado, tomado água e voltado a dormir sem nenhuma perturbação.
Mas sonhar com ELE? De novo?
Assim não dá mesmo.
E já esqueci todo a outra meia hora de sonho.
Porque os seus cinco minutos fazem isso comigo?
"Era como se fosse um rancho. Mas muito, muito chique.
Cheio de lojas de montanhismo, turismo de aventura, etc.
Ainda haviam algumas áreas rústicas preservadas, e eu olhava praquele lugar e via como ele era no passado. Tudo diferente.
Era como se eu tivesse 100 anos e vivido toda aquela transformação.
A gente passeava pelo local e eu contava pras pessoas como ele era no passado.
Tinham duas meninas, não consigo me lembrar quem eram... antes estava tão claro... será que eram elas? Não é possível né...
Lembro também de gritar e chingar muito meu irmão porque ele tirou o tênis da minha mochila e deixou pra fora. Fiquei revoltada. Podia entrar formiga, aranha.
E lembro quando a gente foi pro local conhecido como Pedra Aguda.
Todos os meus (antigos?) amigos ali sentados, agurdando o que ia acontecer (o que ia acontecer?).
Olho pra baixo, em frente às minhas pernas, sentado um garoto que eu nunca vi entre eles.
Cabelo mal tingido e muito feio de cor ruiva.
Ele parecia me ouvir cumprimentar todo mundo, mas não se virou pra falar comigo.
Como se já me conhecesse e estivesse esperando.
Achei estranho. Como não o conhecia também, passei por ele e sentei junto aos outros.
Aconteceu algo engraçado.
Comecei a conversar e rir com o Paulinho.
Eu contei um relato de outro sonho que tive, misturando dois trechos.
"A última vez que estive aqui, eu quase caí. Rolou a maior vertigem. Eu fui olhar lá pra baixo, meu corpo pesou, eu comecei a dar quase uma cambalhota. Mas não cai, hehe.".
A gente estava se divertindo, quando de relance, eu vi o rosto do garoto estranho, sentado ao lado do Paulinho.
Era ele.
Céus, como estava mudado.
Eu, sem conseguir disfarçar a surpresa, o cumprimentei envergonhada e animada.
Ele estava muito constrangido.
Nos primeiros segundos, nada de novo.
Até que eu tive que me desculpar.
"É que você está tão diferente. Nossa, você mudou muito!"
De repente, o rosto dele se fechou, ele ficou muito bravo e começou a agir como quem fosse gritar muito alto. Ele estava revoltado com as minhas palavras.
"Não tem nada a ver com meu nome. NÃO TEM NADA A VER COM MEU NOME."
Ele estava quase fora de controle, e no mesmo segundo eu percebi que o que ele queria me dizer era que eu estava me esquecendo de quem ele era de verdade, do coração dele.
E então, foi como se eu tivesse balançado a cabeça e ele estava ali de novo.
O de sempre.
Sem mudanças.
Acho que lembro de ter olhado muito fundo nos olhos e enxergado aquela inocência, aquele encanto que sempre me derrubou.
Que arma.
Eu tentei acalmá-lo pedindo desculpas, dizendo que sabia.
Ele automaticamente pendeu o corpo pro meu lado e eu acolhi, a cabeça repousando no meu peito enquanto eu afagava seus cabelos.
Ele já respirava melhor.
Eu tinha o acalmado.
Isso me fez sentir que eu tenho um poder imenso sobre ele, que eu era a única que podia ajudá-lo naquele momento, e isso me fez sentir bem.
Será que ele sabe dessa minha necessidade de ser útil?
Isso foi golpe baixo!!!
De certo modo, fiquei revoltada comigo mesma.
"To caindo na armadilha dele!"
Ah, mas era tão irresistível...
Quem não cairia? Ou será que só funciona comigo?
Ele levantou a cabeça pra olhar pra mim.
Eu já não conseguia disfarçar. Retribui o olhar, sentia que ele queria dizer algo importante agora, depois do que tinha acontecido.
Ele simplesmente me beijou!
Eu tentei evitar, mas ele segurou meu rosto e fez isso de novo.
E parecia não se importar com o que eu estava pensando!
Quando mais eu me virava, mais feliz ele ficava, parecia um jogo.
Decidi ceder, eu parecia não ter mais opções.
E então, aliviado, ele me beijou uma, duas três vezes, talvez mais.
Eu de olhos abertos assistindo aquilo, pensando quando iria acabar.
Ele tinha um sorriso inexplicável nos olhos.
Dava pra ver mesmo que eles estivessem fechados.
Depois, ainda segurando meu rosto, ele olhou bem pra mim, estava tão satisfeito.
Parecia que tinha recuperado algo que perdeu há muito tempo.
Nessa hora eu pensei se as coisas tinham ficado bem explicadas há 9 meses atrás, quando tudo acabou.
Não importa. Nada parecia explicável nesse momento.
Estávamos todos ali, juntos, e ele me beijou sem parar na frente de todos.
"Isso vai ter uma consequência enorme", pensei.
E agora, como as coisas ficam?
A gente volta, e tudo o que lutei pra esquecer terá sido inútil?
Quando caí, a força imensa que fiz pra levantar, terá sido em vão?
Eu olhava pra ele, tentando continuar madura.
"A gente tem que conversar em outro lugar."
Mas ele estava tão feliz com tudo, não estava dando a mínima pro que eu falava.
E antes que eu pudesse pensar em sugerir mais alguma outra coisa, ele começou a falar ali mesmo.
E o mais estranho, foi que ele não falava de nós. Ele só falava dele.
Como se esse grito de socorro tivesse permanecido calado por todo esse tempo, mas agora ele explodiu.
Falou da UNIFEI, de como estava indo mal, de como estava perdido em todos os aspectos, das burradas que ele comumente fazia, e continuava fazendo, mas nada disso já não fazia bem pra ele. Ele não tinha mais amigos. Tinha virado um crianção insuportável.
Mas o que mais me machucou, foi quando ele começou a falar de sua rejeição dentro de casa.
A essa altura, era como se a gente já não estivesse no meio de todo mundo, estávamos sozinhos, caminhando.
Ele beirava o choro, dizendo que sua mãe já não queria mais saber dele.
"Eu já tenho meus problemas, e agora você vem com os seus? Você costumava ter pra quem correr, não é? O que fez com tudo aquilo? Jogou fora? Agora o problema não é meu.".
Aquilo me machucou tanto.
Em questão de segundos, me coloquei no lugar dele, pensei em como eu escondo de todos os meus problemas, mas também explodo às vezes, e ainda assim, minha mãe muitas vezes estava lá, pronta pra me ouvir. E aquilo me fazia tão bem. Mesmo que não fosse hábito, era bom ter um refúgio às vezes.
E ele não tinha.
Quis me tornar o mundo pra ele no mesmo instante.
Quis pegá-lo no colo, ser a única ali pra ele.
Satisfazer toda aquela carência que ele tinha.
Era quase um sentimento de vingança, porque ele sabia que eu queria ser só dele e estava fazendo isso direitinho.
Então eu queria pegar o ponto fraco dele, ali naquele momento, e fazer com que o mundo dele se resumisse só a mim agora.
Ele teria que escolher entre me amar e me querer pra sempre ou voltar pro fundo do poço.
Essa frieza estava viva em mim no sonho.
Eu parecia disposta a realmente fazê-lo escolher.
Sentia que era minha única defesa depois dele ter jogado tão baixo comigo.
Ele sabia que falar só de si mesmo, mostrar que a vida dele estava pior, seria suficiente pra despertar em mim uma vontade comensal de voltar para ela e tentar consertá-la.
E antes, ele teve o cuidado de fazer uma demonstração de como eu era eficiente nesse aspecto.
Foi quando ele levou um cigarro a boca.
Nem percebi que ele estava fumando.
Minha cabeça parecia estar mesmo a mil.
Na mesma hora, interrompi o gesto dele de modo que ele não chegou a dar uma tragada.
Ele entendeu e pareceu ter gostado de tal proteção.
Eu ia jogar fora e dizer algo do tipo "Você sabe que não precisa disso".
Mas meu gesto o interrompendo já tinha deixado aquilo muito claro, e eu não sabia até quando estaria por perto pra jogar seus cigarros fora.
Achei que o melhor era que ele fizesse aquilo.
Fiquei esperando, ele pareceu entender, mas esperou também, como se quisesse motivação.
Dei um sinal de cabeça pra ele e ele jogou o cigarro longe."
Depois disso, já não lembro de mais nada.
Não sei nem se acordei, ou continuei sonhando.
Só sei que ficou essa sensação no ar de quem está esperando uma resposta, uma decisão ser a tomada.
Será que tá na hora de parar de ser racional?
Ou minha última atitude é que foi emotiva demais?
Fazer o que fiz, foi o mesmo que ter jogado tudo fora no sonho.
Só que fiz isso na vida real.
DROGA!
Me sinto forte pra agir assim só por causa do sonho.
Não vou ter esse sonho todo dia.
A vida real vai continuar, eu vou me arrepende tanto.
Espero não ter feito uma merda maior do que eu consigo limpar.
Pra isso, vou precisar muito da ajuda dele.
E é exatamente por isso que tenho medo de não conseguir.
Sabe, acho que preciso urgentemente tentar dormir de novo.
Há 6 dias

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