10.10.10

Idas e vindas

03/outubro/2010 - Itajubá x Pouso Alegre
O motorista estava visivelmente com pressa.
Eu podia perceber, a cada freiada brusca que ele dava diante das curvas, que ele estava claramente rápido demais para fazê-las.
Até que uma das freiadas foi brusca demais a ponto de quase pararmos! E foi na reta.
Um imbecil "decidiu" parar na nossa frente e quase batemos nele.
Vários pescoços se esgueiraram pra tomar conhecimento.
Eu que já estava na janela e com o pensamento bem longe só olhei e sorri, enquanto alguns permaneceram apáticos e outros esbravejaram um pouco...
Tirando a velocidade que era muito alta, a viagem seguiu como sempre...

Ah! Nesse dia, ganhei carona pra casa! (de novo = +R$5)


08/outubro/2010 - Pouso Alegre x Itajubá
Cheguei a tempo na rodoviária, mas só tinha a poltrona 37 no ônibus das 18h.
"Nem ferrando", pensei.
Comprei a poltrona 27 (minha favorita!) do ônibus das 18:30h, mesmo ainda sendo 17:35h.
Sentei, comi, observei, ouvi música, absorvi.

Quando o ônibus chegou, não fui a primeira a entrar como de costume.
Não estava com pressa.
Dessa vez até coloquei a mala no bagageiro. (geralmente estou de mochila e a levo comigo)
Ao meu lado sentou uma mãe e seu bebê.
Definitivamente eu não curto cheiro de bebê.
Cheirinho de talco e tal pode ser bom, mas o cheiro do bebê em si só me faz lembrar leite morno azedo. (sorte que eles desceram em Santa Rita e ninguém mais sentou-se ao meu lado)

Saindo da cidade, disse obrigada a mim mesma por ter comprado a 27 do das 18:30h!
Da estrada, um trecho de subida, vi a cidade perfeitamente plana e toda iluminada, embaixo de um dos crepúsculos mais lindo que já vi!
O céu bem escuro acima da minha cabeça, descia fazendo um lindo degradê até alcançar uma faixa alaranjada no horizonte.
À minha frente, ele era decorado com o brilho discreto da lua minguante delicadamente desenhada ao lado de uma e outra estrela!
Fiquei olhando aquilo e pensando "Não existe foto pra isso. Isso é tão único. Quero aproveitar tanto! Que egoísmo o meu não poder dividir isso com mais ninguém. Que privilégio. Que sorte!"

Não costumo olhar muito pra estrada nesse trecho, mas dessa vez aquela placa me chamou a atenção: Itajubá/Belo Horizonte/Retorno.
Pensei "Itajubá, Belo Horizonte ou retorno?"
Tanto faz.
Não estou aqui, nem lá.
Sou fluido.
Estou em todo lugar.
Onde meu pensamento está, eu estou.
E assim, meu corpo tenta acompanhar como pode.
Mas, hoje minha passagem é pra Itajubá.
Tudo ao seu tempo!

Seguindo viagem, olhando pro céu que estava muitíssimo escuro por causa das nuvens.
Era lua minguante e não se via estrelas.
Em meio à essa escuridão, fiquei imaginando um objeto luminoso que descesse rasgando o céu!
Um míssel! Não, muito bélico...
Um meteoro! Não, muito trágico...
Um meteorito! Não, muito técnico...
Por que não dizer de uma vez uma estrela cadente! Muito poético?

Saí um pouco do meu devaneio quando a mãe ao meu lado paparicou um pouco o bebê que havia acabado de mamar.
Pensei em como esse bebê é completamente dependente dela, e o quanto ela tem que se dedicar a ele.
Ele não é nada sem ela, e ela é tudo pra ele.
Mães, bebês e suas complicações.
Ela em suas perfeitas condições mentais, amando-o e cuidando-o.
Registrando em sua memória e coração tudo o quanto sente por ele.
E ele, um bebê.
Agindo por instinto, vivendo em um mundo que não compreende e que nada vai levar para o futuro.
Terá ele ideia do amor e dedicação que essa mãe tem por ele?
Do trabalho que ela tem, de tudo que abriu mão e ainda assim faz tudo sorrindo.
Quantas vezes ele vai desapontá-la, vai agir sem pensar nesse amor incondicional que ela tem por ele.
E ele vai decepcioná-la.
E talvez vai embora seguir sua vida sem nunca parar pra pensar nisso.
E ela? Vai ter que assistir sem nada poder fazer.
Vai ver seu filho, seu fruto, crescer e partir sem ouvir todos os dias um "Obrigado pelo cuidado", "Eu te amo".

Sou egoísta demais.
Sou sensível demais.
Não tenho o menor talento pra passar por isso.
Nunca suportaria tamanha ingratidão por parte de uma pessoa que eu me dediquei e amei tanto.
Não estou pronta pra ser mãe.
Tudo indica que não tenho previsão de quando estarei.
Talvez nunca.

Nessa época, por causa das chuvas, é comum que o céu fique coberto de nuvens.
Mas, pra minha felicidade, por um momento ele tornou-se bem aberto!
E eu o vi: Escorpião. À minha direita, todo invertido!
Poderia escrever um livro sobre a constelação de Escorpião.
A primeira vez que o vi, aonde eu estava, com quem eu estava, o que senti.
E assim por diante!
Todas as vezes que admirei escorpião foi marcante e lembro quase que bem!

Coincidentemente, começou a tocar "Know How" e eu reparei bem quando disseram "Is history recorded? Does someone have a tape? Surely I'm no pioneer. Constellations stay the same".
Essa frase me colocou um pouco nos eixos.
Vivo me sentindo perdida, confusa, mudada.
Mas as constelações continuam as mesmas!
Vou me lembrar de manter a calma quando toda essa confusão bater em mim... olhar pra dentro e me reencontrar!

Se tem uma coisa que nunca muda em viagem nenhuma é aquela luz de corredor de ônibus que acende do nada e incomoda pra cacete.
E dessa vez incomodou demais!
A ponto de eu me sentir na obrigação de citá-la aqui.
Pronto. Eu odeio a luz indiscreta do corredor do ônibus.
O interessante, é que como estava olhando pra fora do ônibus, sempre que a luz acendia eu imediatamente encarava meu reflexo na janela.
Até que comecei a brincar comigo mesma.
Prendi o cabelo... soltei... coloquei óculos... tirei... tentei fazer umas fotos.
Aí a luz apagava né? Hnf, muito engraçado...



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