Pensei demais. Senti vontade de chorar.
O fundo do ônibus me dá enjôo.
Não ligaria se chorasse. Ninguém veria.
Mas ficar enjoada realmente me incomodaria.
Vim pensando em coisas que até pouco tempo pareciam tão certas e agora já não tenho certeza de nada.
Na verdade, acho que sonhei alto demais.
Esse é o buraco que eu não paro de cavar.
(...)
Vim com a sensação de que deixei algo muito precioso pra trás.
Olhando assim, talvez o que eu esteja deixando pra trás seja simplesmente eu mesma.
Por que eu me deixo ser consumida?
Que jogo é esse que eu gosto de jogar?
(...)
Queria estar alucinada.
Olhar pela janela e ver coisas que não existem.
Coisas enormes, mas em 2D, e que se mexem.
Como se tudo que eu estivesse vendo estivesse dentro de uma gigantesca tela plana.
Um imenso aquário, talvez.
Qualquer coisa absurda que durasse pelo menos uma música.
(...)
Carrego comigo a impressão de que nunca quis dizer 70% das coisas que já disse.
(...)
No fim, eu sempre transformo amor em ódio.
É tão mais fácil odiar. Sem contar que é muito mais seguro.
Amar desequilibra demais.
E outra: o que as pessoas esperam que a gente faça quando ama?
Quando odiamos, pelo menos esperam sempre a mesma coisa.
(...)
Em PA.
O motoboy me reconheceu. Droga. "Já te trouxe aqui num domingo."
Ainda na rua, percebi que deixei a luz da varanda acesa. DROGA!
A casa está uma zona.
Não sinto a menor vontade de arrumar.
Ninguém vai ver mesmo.
Só eu importo dentro deste apartamento.
Contanto que eu tenha o que comer e onde dormir, a bagunça não vai ser o que mais me incomoda.
Cortando tomate, a faca passou no meu dedo e cortou como se fosse manteiga.
Sinal de que eu estou sabendo afiá-la.
Amanhã começa.
Boa semana, Thaís.

* postando ao som de Portishead.

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