15.11.11

Chuva

Estou começando a cultivar um ódio por essa cidadezinha parecida com o que sinto por aquela outra.

(...)

Não dá pra comer e chorar ao mesmo tempo.
Então você escolhe comer, porque está atrasada e chorar não vai te levar a lugar nenhum.

Ninguém gosta de chorar na frente dos outros porque a pessoa que vê nunca faz nada pra ajudar.
No máximo te faz rever todos os motivos que te levam a chorar, pedindo explicações, pra no fim lamentar pelas suas lágrimas e arrumar o que fazer.

(...)

Odeio quando meu pai me abraça na rodoviária e diz:
"Percebi que você tá meio tristinha, filhota, não gosto de te ver assim."
"Por isso to indo embora." - penso.

(...)

É sempre você por você mesmo.
Enquanto você tá no jogo, você tem sorte.
Mas se cair na besteira de sair por uma rodada, que seja, é praticamente impossível voltar.
As pessoas aprendem a viver sem você muito fácil.
Te substituem muito rápido.
E você acaba assistindo o jogo do lado de fora.

(...)

Meu estoque de carinho se esgotou.
Agora só o que tenho pra oferecer é amargura mesmo.

(...)

Ele sempre vai embora de Itajubá grato.
E eu, decepcionada.

(...)

Saudade estranha da sala de observação, de tomar soro, da cama dura de lençois verdes limpos...
A sensação boa de que estar ali justifica tudo.
O tempo perdido, os compromissos inadiáveis, o fato de você ter sumido por um tempo, as atitudes estúpidas que tomou.
As pessoas que aparecem de tempos em tempos com um sorriso no rosto pra te dar um "alô", perguntar se você está bem, mas sem te incomodar demais.
E, por fim, o fato incontestável de que alguém reconhece que você precisa de ajuda.
E toma uma atitude por você!

(...)

Boa parte dos problemas da vida se resolveriam se a gente gostasse de quem gosta da gente.
Ou se as distâncias pudessem ser facilmente diminuídas.

(...)

Talvez se eu passasse a deixar o quarto uma bagunça quando fosse embora da casa dos meus pais, eles lembrariam que eu estive por lá.
Talvez se eu começasse a fazer tudo errado e a precisar de ajuda, as pessoas começariam a me notar.
Mas ninguém precisa se preocupar comigo.
Eu não permito tanta atenção.

(...)

Quando é que tudo se tornou essa fuga sem fim?
Saio de Pouso Alegre pra fugir do que não é meu.
Não fujo da solidão, não fujo do desconforto.
Só fujo por instinto. Porque esse lugar não é meu, então eu fujo.
Então fujo de Itajubá também.
Fujo da solidão mascarada, da hipocrisia de estar de volta a lugar nenhum.
O que era meu ali, eu perdi.
E gostar da estrada faz cada vez mais sentido então.

(...)

Não sei porque as pessoas tem esse problema em falar sério comigo.
Se eu tivesse a chance de conversar de igual pra igual com alguém, tudo seria mais fácil.
Mas as pessoas não atingem esse meio termo comigo.
Ou vem sempre de risadinhas, falsidade.
Ou simplesmente se esquivam. Dizem que eu não estou a fim de papo e que vão me deixar sozinha.
Não sei quantas vezes já ouvi esse discurso.
Eu que não estou a fim de papo? Seria cômico se não fosse trágico.

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